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Poker Interminável:

Sou fã do Luis Fernando Veríssimo desde pequena. Chorava de rir com as histórias do Analista de Bagé, muitas vezes não entendia a trama que envolvia a Velinha de Taubaté, fantasiava horrores enquanto me imaginava numa mesa de poker, jogando um poker interminável. 

A verdade é que aprendi a jogar poker por causa dele. Foi mais pra entender porquê o jogo nunca acabava do que pra ser mais uma dessa raça de jogadores. Acabei amando o poker e Luis Fernando Veríssimo, e sempre que há um amigo secreto, procuro dar algum dos livros dele como presente.


Seus livros são simples e inteligentes, possuem humor ácido e rápido enquanto suas crônicas são certeiras e diretas. Enfim, se eu pudesse transmitir o amor que sinto por esse autor, seria indescritível. Aliás, não acreditem em tudo que está na internet com o nome dele como autor. Quem é fã do cara sabe como ele escreve.


Pra terminar, segue uma das melhores crônicas de todas, Poker Interminável I:

Cinco jogadores em volta de uma mesa. Muita fumaça. Toca a campainha da
porta. Um dos jogadores começa a se levantar.
Jogador 1 - Onde é que você vai? Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
Jogador 2 - Bateram na porta. Eu vou abrir.
Jogador 1 - A sua mulher não pode abrir?
Jogador 2 - A minha mulher saiu de casa. Levou os filhos e foi pra casa da
mãe dela.
Jogador 1 - Sua mulher abandonou você só por causa de um joguinho de pôquer?
Jogador 2 - É que nós estamos jogando há duas semanas.
Jogador 1 - E daí?
Jogador 2 - Ela disse: "Ou os seus amigos saem, ou eu saio".
Jogador 1 - Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
(A campainha toca outra vez. O dono da casa vai abrir, sob o olhar de
suspeita dos outros. É um garoto. O garoto se dirige ao Jogador 1.)
Garoto - A mãe mandou perguntar se o senhor vai voltar pra casa.
Jogador 1 - Quem é a sua mãe?
Garoto - Ué. A minha mãe é a sua mulher.
Jogador 1 - Ah. Aquela. Diz que agora eu não posso sair.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
Garoto - Eu trouxe uma merenda para o senhor.
Jogador 3 - Epa. O golpe do sanduíche. Mostra!
Jogador 5 - Vê se não tem uma seqüência dentro.
Jogador 1 - Não tem nada. Só mortadela.
Garoto - A mamãe também mandou pedir dinheiro. (Todos os jogadores cobrem
suas fichas.)
Todos - Ninguém dá. Ninguém dá.
Jogador 1 - Diz pra sua mãe que eu estou com um four de ases na mão. Como
ninguém vai ser louco de querer ver, a mesa é minha e nós estamos ricos.
Jogador 4 - Se você tem um four de ases então tem sete ases no baralho, por
que eu tenho trinca.
Jogador 1 - Diz pra sua mãe que o cachorrão falhou. (Toca o telefone. O dono
da casa se levanta para atender.)
Jogador 3 - Mas o quê? Não se joga mais? Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai. (Apesar dos protestos, o dono da casa
vai atender o telefone. Volta.)
Jogador 2 - Era a mulher do Ramiro dizendo que o nenê já vai nascer.
Jogador 4 - Meu filho vai nascer. Tenho que ir lá.
Jogador 1 - Ninguém sai.
Os outros - Ninguém sai. Ninguém sai.
Jogador 4 - Mas é o meu filho.
Jogador 3 - Você vai pro batizado. Quem é que joga?

Comments

  1. tem um vídeo no youtube dramatizando essa crônica...ou ao menos tinha...

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  2. Tem, eu assisti e achei horrível :|

    ReplyDelete

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